A DEMONIZAÇÃO DO BLACK METAL


Ninguém sabe ao certo como se deu origem ao estilo mais maldito da música pesada mundial. Talvez a sonoridade tenha sido com o Hellhammer, a temática lírica pode ter sido com o Venom e a questão estética quem sabe com King Diamond e Mercyful Fate. O certo é que os ingleses batizaram o estilo com o clássico álbum de 1982.

Só que foi na gélida Noruega anos mais tarde que o estilo ganhou forma, identidade e uma aura verdadeiramente satânica em sua sonoridade e imagem. Com algumas influências dos nossos conterrâneos do Sarcófago do seu cultuado INRI, álbum lançado em 1987 que contribuiu com os blast beats e com o visual necro-satanista com a evolução do corpse-paint. O satanismo foi adotado como tema central e o ataque a religião judaico cristã era o principal intuito das bandas surgidas por lá. O resto da história todos já sabem, virou filme e livro.

O estilo musical ficou maior que aquele pedaço de terra na Escandinávia, cruzou fronteiras e ganhou ramificações tanto líricas quanto instrumentais, ganhando adeptos e praticantes nos mais variados lugares do globo. Vampirismo, niilismo, misantropia, suicídio se juntaram ao satanismo nas letras das bandas do estilo. Ao longo dos anos dois outros temas foram absorvidos por quem tocava o estilo: o paganismo e o cristianismo com o surgimento do pagan Black Metal e o unblack metal. Quanto aos cristãos apenas incoerência talvez, já com os pagãos o estilo caminhou para consequências desagradáveis. Nesse momento a coisa começou a ficar meio nebulosa, mas para entendermos isso precisamos voltar ao boom do Black Metal norueguês. Aconteceu que o Varg, líder do Burzum resolveu abandonar o satanismo e adotar o orgulho de ser norueguês, bem como os deuses nórdicos o que o levou até mesmo a negar o Black metal anos mais tarde. Muitas bandas começaram a adotar essa temática, entretanto algumas delas exageraram na dose, afinal do orgulho exacerbado de pertencer a um lugar para o sentimento de superioridade e desdém para com os outros é um pulo. Estava lançada a primeira semente e pouco depois tivemos notícias das primeiras bandas assumidamente nazistas e o infeliz surgimento do NSBM.

Os neonazistas fizeram com o Black metal o mesmo que fizeram com a cultura skinhead e com as torcidas organizadas de futebol, se apropriaram dele chegando ao cúmulo de misturar o satanismo com discurso de cristão conservador. Esse fenômeno fez proliferar bandas nazistas por toda a Europa, Américas e até mesmo na Ásia. Hoje em dia até mesmo no ensolarado nordeste brasileiro temos bandas NS e isso trouxe um prejuízo gigantesco ao estilo, já que para quem é de fora ficou a sensação que toda banda de Black metal é nazista. Mesmo que tenhamos notícias de músicos de outros estilos envolvidos com ideais como xenofobia, racismo e afins, é no Black metal que cai todo o peso do nazismo na música pesada.

Há de se ter muito cuidado com as informações que são tiradas de blogs detratores do estilo, frases fora de contexto e fatos que ocorreram há 30 anos ou mais. Quem não gosta do estilo vai tentar rotular todo ele como nazi, pegando fatos que eram usados para simplesmente chocar onde até bandas como Sepultura, Ratos de Porão e grupos punks usaram suásticas ou tiveram declarações infelizes.

Hoje existem bandas declaradamente antifascistas e até mesmo bandas de Red. Anarchist Black Metal, entretanto existem muitas bandas que falam de satanismo, ocultismo, bruxaria, lendas indígenas, história, vodu, quimbanda e até mesmo bandas como a Janaza que é uma banda onde seus integrantes arriscam a vida para tocar, já que a banda é do Iraque e faz parte do Arabic Anti Islamic Legion, um coletivo de bandas de Black metal do oriente médio que cantam contra o islamismo e caso seus integrantes tenham suas identidades reveladas podem ser executados.

O que eu quero deixar claro nesse relato é que por mais que tenhamos nazistas no estilo, o Black metal é maior que isso, é um estilo que nasceu da contestação ao cristianismo e o verdadeiro satanismo não prega nenhum tipo de segregacionismo baseado em raça, sexo ou condição sexual. O fato de uma banda não versar contra o nazismo não a torna nazista necessariamente. Enquanto alguns procuram elementos por pura picuinha ao estilo, os verdadeiros nazistas estão formando bandas, abrindo selos, lançando material e se organizando.

O intuito desse texto não é negar a presença de nazistas no estilo e muito menos dizer que todos devem apreciá-lo, o objetivo é unicamente deixar claro que muitas coisas que são ditas sobre Black metal são equivocadas ou até mesmo mal-intencionadas. Apenas isso.


Texto Peter Jaques e P.S Indy Lopes


Menção honrosa para bandas que estão aí mudando essa cara feia que o BM tem.

Existe muita gente fazendo trabalhos incríveis no cenário Black, e cada vez mais isso vem sendo trazido a discussão, vem sendo criado playlist antifascistas de BM, as pessoas também estão se organizando para promover seu som progressista, ou no mínimo não nazi.

Bandas como Hereticae, Vazio e Alchimist são apenas uma pequena amostra do que vem por aí.







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