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El Efecto em Porto Alegre no Espaço Cultural 512 dia 03/09/22


O Coletivo esteve presente no show da El Efecto onde pode conversar com os integrantes dessa que sem dúvidas é uma das bandas interessantes dos últimos tempos. Misturando ritmos e sem medo algum de politizar sua arte, a El Efecto nos cedeu uma entrevista linda que você pode conferir abaixo além de fotos incríveis feitas pelo amigo Raphael Seabra.


Perguntas para todos da banda:


"Teu nome há de ecoar". Essa frase é essencial e muito importante ainda mais hoje em dia, onde temos recursos melhores de alcance, isso é um grito por mais representatividade sendo vistas e lidas por crianças em livros e lendas históricas que infelizmente não são exaltadas da maneira que deveriam ser, nomes como Tereza de Benguela, Carlos Mariguella, Maria Rita do Nascimento, até mesmo muito mais exposição de artigos e fatos sobre a cultura africana. Ouvindo o som percebemos que muitos grupos estão lutando em prol disso, sendo por textos, vídeos e música. Como vocês se sentem sabendo que essa contribuição sócio cultural de vocês é um dos Marcos iniciais para todos que escutam e compartilham o som de vocês???


Pois é, na tarefa de encarar a arte como ferramenta de luta, a gente foi aprendendo a importância do lance da memória, né? Entendendo que a coisa toda passa pela necessidade de nos posicionarmos na disputa política que rola entre aquilo que deve ser lembrado e aquilo que deve ser esquecido. Então na nossa caminhada, a gente vai tentando aprimorar esse olhar histórico, fortalecendo os laços entre passado, presente e futuro, buscando lá atrás as referências que nos ajudam a entender os desafios que enfrentamos. A ideia do disco "Memórias do Fogo" passa toda por essa iniciativa de evocar personagens, vozes, episódios, histórias, e com isso, botar na roda referências de resistência, de luta, de linhas de fuga pra construir outra forma de vida.


Ficou evidente no show a diferença de público, vimos muitas pessoas da cena do Metal porto-alegrense e, claro, pessoas de idades bem distintas, mas, em grande parte, jovens.

Nossa dúvida é: vocês conseguem alcançar o público que esperam? Vocês têm um público-alvo?


A razão de ser da banda é política e os nossos alvos são a degradação da vida pelo capitalismo, a desigualdade social, as diferentes formas de opressão e injustiça e por aí vai... Nesse sentido, desejamos chegar a todo mundo que também sente esse incômodo, que também acredita na necessidade de transformar as coisas e, de alguma forma, conseguir somar na tarefa de organizar a raiva, participar do debate, estimular a inquietação e fortalecer as lutas. Ao mesmo tempo, temos consciência de que o som que fazemos tende a condicionar um pouco o tipo de público que se aproxima. A mistura de muitos elementos, a estrutura muitas vezes descontinuada, o tamanho das músicas, as letras muito longas, são fatores que parecem limitar um pouco a circulação ou a predisposição de quem chega junto. Daí, num primeiro momento, pode ser que fique uma coisa meio restrita a pessoas que tenham costume e interesse em música alternativa ou algo assim. Ao mesmo tempo, parece haver também várias formas de entrada ou pontos de contato e o desafio passa também por encontrar formas de circulação e ampliação da difusão. Um incômodo que nos acompanha é o risco desse tipo de recorte de público reproduzir também recortes de classe. É uma questão sensível pra gente e tentamos levar isso em conta na forma de conduzir as contradições entre forma e conteúdo que atravessam a nossa vivência e a caminhada do nosso fazer.

A música é de protesto e, mesmo que com som agradável e animado, traz uma mensagem contundente. Vocês acreditam que ela possa ser vista como esperança? Ou como alerta?


Sim, acreditamos nessas duas frentes, na combinação dessas duas "funções". Por um lado, a de evocar e levantar as bandeiras, fortalecer o imaginário, energizar e tal. E pelo outro, botar o dedo nas feridas, seguir caminhando na crítica, na autocrítica, gerar inquietação e até mesmo mal-estar. Tentar fazer com que esses dois lados dialoguem e se alimentem.


Nos surpreendeu muito a primeira música que ouvimos de vocês (Drama da Humana Manada), pela mistura de ritmo brasileiro com Rock, diríamos até que com Metal. Isso é algo que sempre falamos no coletivo: como misturar dá certo. De que maneira isso começou? Vocês pensam muito nisso ou só de fato incluem o que gostam?


O gesto inicial de criação da banda foi mesmo esse impulso de misturar. Uma iniciativa em que o interesse por música variada se misturava com a vontade de questionar a segmentação dos gêneros e os reflexos sociais e políticos que a gente achava que acompanhavam essas paradas. Nossa impressão é que há 20 anos atrás, pelo menos na nossa vivência, o ecletismo tão celebrado hoje em dia, era algo menos presente, e começamos a banda com essa pegada de misturar, principalmente pra questionar os aspectos de distinção social que orientam o consumo de música, identidade, etc. Com o tempo, fomos organizando essa ideia, que era mais caótica, e afiando o lugar do ecletismo, buscando uma coerência entre música e letra como forma de justificar e dar mais sentido às misturas.


Quais são as maiores referências de vocês no rock em geral e na MPB?


O disco dos Saltimbancos, Racionais Mcs, Violeta Parra, Luíz Gonzaga, Rage Against The Machine, Karnak, Faith no More, Luiz Melodia, Hermeto Pascoal, Gilberto Gil, Astor Piazzolla, Chico Science, Demi Lovato, System of a Down, Moacir Santos, Mundo Livre S/A, Nelson Cavaquinho, Jorge Aragão.


Perguntas para Aline e Cristine:


É reconfortante ver duas mulheres tão talentosas no palco, duas mulheres pretas são muito mais reconfortantes. Como é a recepção do público a vocês, principalmente no caso de você, Cristiane, sendo uma guitarrista?


Aline:


A recepção do público é ótima.

Por eu tocar instrumentos que foram tocados mais vezes por mulheres no Brasil (flauta e clarinete), essa imagem é um pouco mais comum no imaginário das pessoas do que por exemplo uma mulher tocando baixo ou bateria. Sabemos que não existe instrumento que seja por qualquer motivo mais adequado pra ser executado por pessoas de gênero x,y ou z mas sim, sabemos que por questões relacionadas ao machismo que estrutura nossa sociedade, o argumento furado da falta de “peso”, “pressão” ao tocar, assim como a falta de representatividade , afastaram meninas e mulheres de alguns instrumentos de base. Agora provavelmente o fato de estar tocando meus instrumentos num contexto mais roqueiro, que é por onde passeia principalmente o El Efecto, possibilita a ampliação do imaginário do público sobre essas supostas limitações de atuação das mulheres em qualquer contexto musical, com qualquer instrumento. Pelo menos espero estar contribuindo pra que isso cada vez mais se dilua e, com sorte, desapareça.


———

Cristine:

Muito obrigada! É sempre uma alegria sentir o apoio do público no geral, principalmente de outras mulheres. É muito comum conversar com mulheres antes e depois dos shows e ouvir que estão estudando e se aperfeiçoando na guitarra e na música. Também é comum ouvir algumas coisas que chegam como elogios, que são ditas nas melhores intenções, mas que em certo ponto ainda são baseados em argumentos machistas. Ocasionalmente existe comparação com homens, do tipo conhecer "muito homem que não toca desse jeito", e isso bate num lugar meio chato na maioria das vezes. A presença e a visibilidade de mulheres em lugares que não são muito comuns é para além de superação de outros homens. É claro que a superação do patriarcado é destino certo, e valorizar e destacar as potências femininas apesar dele é de suma importância na sociedade, mas tem maneiras melhores de elogiar mulheres, não é verdade?


Aline, ficamos impressionados com a quantidade de coisas que você faz no palco, você é musicista desde quando? O que você diria para as pequenas Alines do mundo?



Obrigada!

O que eu diria… que se juntem, se possível, a lugares e pessoas que apoiem seus caminhos. Eu tive sorte e privilégio de ter uma família que apoiou as minhas inquietações e buscas então nesse contexto, pude começar essa pesquisa sem fim sobre “que raios eu estou fazendo aqui” com suporte forte, desde cedo. Mas a música entrou na história de forma bem lúdica. Aos 12 anos mais ou menos tive aulas de piano e participei de corais, mas comecei a estudar meu instrumento só aos 14 - que dizem por aí, não ser tão cedo -. Não acredito nessa história de ser cedo ou tarde pra algo, afinal, a gente nunca sabe a motivação de uma pessoa pra começar a fazer qualquer coisa é seu propósito. Sei que quando encontrei a flauta levei a sério, por paixão e por possibilidade, essa história de estudar um instrumento.


Pergunta para Tomás Rosati:


Seu vocal é muito potente e, ao vivo, isso se torna ainda mais claro e limpo. Quais os cuidados que você tem com a voz?


Muito obrigado! Na verdade, não tenho muitos cuidados, tenho passado a me preocupar com isso mais agora, tentando construir uma prática de aquecimento antes dos shows e tal, algo que ainda não consegui firmar. Mas também nunca tive grandes problemas, talvez porque também não tenhamos sequências de shows muito intensas, dá tempo de dar tudo de si na raça e depois se recuperar, rs



Pergunta para Ygor Helbourn:


Seu som é bastante pesado, achamos muito familiar, considerando que somos do meio do metal extremo, o peso nas músicas é surpreendente. Quais suas influências?


Minhas primeiras influências são no universo da MPB, black music e rock progressivo. Depois da adolescência tive uma imersão grande no metal com todas as suas variações e foi um caminho sem volta. Hoje no El Efecto a minha forma de tocar é bastante influenciada pelas próprias canções e seus espíritos de luta, contestação e conflito. É impossível não se contagiar pelas canções da banda.



Fotos feitas por Raphael Seabra
























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